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AutoEntrevista

GUILHERME WHITAKER, IDEALIZADOR DA MFL,
QUESTIONA GUIWHI SANTOS, CURADOR DO EVENTO,
E VICE-VERSA.

Como a MFL foi criada e pra que ela serve? A MFL é também fruto de uma situação que em 2002 chegava ao seu limite, a falta de espaço para exibições de filmes alternativos no Rio de Janeiro. Naquela época, mesmo sendo tão perto, era tudo muito diferente (imagine então há 10, 20 ou 50 anos...)... Até 2001, centenas de pessoas iam mensalmente na Fundição Progresso assistir a uma sessão chamada Mostra O Que Neguinho Tá Fazendo (MOQNTF), evento amador e livre por natureza, democrático ao extremo de passar filmes levados na hora pelo público e projetando filmes em super8, 16mm eou muito VHS. Quando pela primeira vez o CCBB sediou a MFL ele também estava dizendo: “queremos exibir esta produção alternativa”, e desde então a MFL tem sido, a cada ano, um pouco do que a MOQNTF foi, querendo experimentar o próprio MOSTRAR FILMES, fazendo do evento em si algo inusitado e bom, a começar pelo conteúdo de um catálogo com quase 200 páginas, espelho físico deste evento para nós tão importante, a findar pela forma como escolhemos e programamos os filmes. Naturalmente a MFL é também um reflexo dos novos tempos que aí se colocam fruto destes agoras. Daí que sempre me incomodou a lenda, queu ouço desde sempre, de que no Brasil para se fazer cinema é preciso grana e questa tem que ser estatal. Há 20 ou 30 anos talvez fosse mesmo a principal eou única forma, não no século XXI. Com o digital tudo mudou e muda, num avanço tecnológico sem fim, para o bem e para o mal. A MFL aposta neste futuro de novas possibilidades de se fazer e se mostrar filmes de forma simples, barata e nem por isso menos instigante do que em eventos eou filmes caríssimos. Ou seja, a MFL foi criada para ocupar um espaço em branco, um lugar que faltava para escoar e ecoar esta imensa produção de filmes que hoje quase todos podem fazer, seja com celular, com webcam eou mesmo sem câmera, desenhando no computador.

Você não acha contraditório que, mesmo sendo focada em filmes realizados sem apoio estatal, a MFL apenas é possível, desde sua primeira edição, graças ao apoio do Estado? Sim, a primeira vista. Não logo na seqüência. Por quê? Bom, basta pensar um pouco; a MFL acaba sendo uma ótima forma do citado Estado participar e ajudar no desenvolvimento da (ainda pseudo, pois mal tratada pelo próprio Estado quando, por exemplo, taxa a entrada de equipamentos de vídeo como câmeras, projetores e etc., daí obviamente apenas quem tem muita grana consegue comprá-los, até porque já são equipamentos caros, mas mesmo os baratos são super taxados... qual a razão desta taxação se tais equipamentos não são produzidos sequer no hemisfério sul?) indústria do audiovisual em nosso país. Já que não consegue criar mais facilidades para a produção independente, ao menos na difusão destes filmes, que é tão relevante quanto a produção, o Estado (ao apoiar a MFL através das leis de incentivo) participa, o que é muito importante para os fazedores de filmes livres. A difusão de filmes experimentais é (ainda), em si, algo não atraente comercialmente, daí se o Estado não chega junto seria praticamente impossível exibir a tantos filmes de forma regular, como fazemos. Se o Brasil é um país de todos e não de tolos, é importante haver, nas próximas décadas, maciços investimentos para que um dia tenhamos uma dependência cada vez menor (e não maior) do Estado para se fazer e exibir filmes. De outra forma jamais seremos, de fato e de direito, uma indústria audiovisual.

Alem de produtor você é curador, não é minimamente estranho? É, o que não é em si mau, neste caso até pelo contrário. As funções de produtor e de curador são diferentes mas não excludentes.É como ser gerente de padaria e também saber, e gostar de, fazer pães. É ótimo queu saiba quais filmes estou me esforçando, como produtor, pra exibir. E não estou sozinho, a curadoria é um grupo até bem eclético, de gente que tem feito, nos últimos anos, muitos filmes livres que apontam em diferentes caminhos estéticos (desde os enredos punks de KZL até os filmes do EU de Ikeda, em comum talvez apenas o custo quase zero dos filmes e a busca pelo lugar incomum). Não por acaso, já passaram pela curadoria da MFL muitos dos curadores da MOQNTF, pois o espírito é o mesmo, só que agora com mais recursos (a MOQNTF era feita na raça, também por isso acabou pois quem a fazia tinha que cuidar da vida, ganhar tutu e não houve renovação na galera pra assumir a produção – a MOQNTF durou 3 anos). Ou seja, comecei a me envolver com cinema fazendo e exibindo filmes, pra mim é natural e bom seguir fazendo isso já queu faço com extremo prazer.

Por que a MFL deixou de ser informativa para ser competitiva? A idéia de gerar competição é interessante por alguns motivos, o principal deles porque nosso evento é conceitual, ou seja, trabalha em cima de uma idéia que, como tal, é mais e menos que a realidade, até porque dela deriva mas não precisa ser sempre sua dependente. Querer praticar (e não apenas pensar) os significados desta querida liberdade criativa é o que fazemos a cada edição e o que nos torna um evento EXPERIMENTAL, não estanque às tradicionais formas de se mostrar filmes, se nas ruas, becos, salas eou sites e telefones celulares.Por envolver tanta coisa é que o buraco é bem mais embaixo, o que é ótimo já que quem não arrisca não petisca. A curadoria da MFL não apenas escolhe os filmes que passarão no evento mas também fazemos as indicações aos prêmios. Ou seja, prum filme ser considerado um filme livre de excelência (algo como um modelo de filme livre) não basta ser selecionado. É preciso ser indicado. Em 2007 são 32 indicações nas 5 categorias. Assim o público tem a chance de conhecer melhor o que queremos dizer com filme livre. Sem tais indicações como o público (e os próprios realizadores) saberiam diferenciar as pérolas dentre as centenas de filmes em cartaz? O publico não assiste a todos os filmes, não tem tempo, já a curadoria ganha para isso... As indicações já são em si um prêmio pois cada filme indicado ganha um texto no catálogo e na internet onde a curadoria defende sua indicação, é bem legal. A premiação também facilita a realização dos novos projetos dos premiados, já que os prêmios não são em dinheiro mas em serviços audiovisuais. E sabemos também que uma premiação chama a atenção do filme, valorizando-o e, quem sabe, facilitando sua seleção em outros festivais.

O que significa Guiwhi e por que você quis se entrevistar? Guiwhi é o resumo de Guilherme Whitaker. Nunca li uma autoentrevista, mas tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Uma autoentrevista pode ser tão relevante quanto uma autobiografia ou a receita de um bolo. Não importa o gênero e sim que diabos se está dizendo, qual a eficácia do que se diz, se presta ou nem, se em dez minutos eou cem anos seguirá tendo importância ou se tanto faz... não importa quem fez as perguntas e sim as perguntas em si. Havendo inteligência, questão, tá bom, as vezes ótimo... quis me entrevistar porque acredito que as coisas são frutos de um esforço coletivo e pessoal e, ao me conhecer melhor, o público da MFL automaticamente vai conhecer o evento de uma forma melhor também. Existem questões que apenas cada qual conhece e seria capaz de tornar pública, não um repórter que de repente pegou a pauta sem saber de nada relativo e precisa escrever duas colunas pro jornal. Desde sempre sou um curioso praticante da auto-análise, é da minha natureza e eu gosto... daí o descompromisso desta autoentrevista. Os menos CRIAtivos vão achar egocentrismo; também gosto muito de dois curtas do Caselli, chamados Este documentário e Autoconhecimento, que são muito essa investigação sobre a curiosidade, sobre o eu e sobre o descobrir o novo mesmo que sem querer, ir indo pra ver onde se vai, daí me insPIREI para falar (ou pensar alto) da Mostra do Filme Livre, já com seis anos. Mas valeria a pena publicar isso? Bom, se você está lendo é porque achamos que sim. Brinco que todos nós somos não apenas “eu” mas “eus”, a começar porque temos sobrenomes e a findar porque geneticamente não existe humanidade sem o “nós” e por aí vamos. Esta coletividade começada nas cavernas e que hoje nos permite ver e modificar o invisível, voar eou tomar leite sem precisar conhecer vacas, tudo fruto de esforços coletivos de nossos entes passados. Com certezas se todos fizessem uma vez na vida uma autoentrevista este imundo seria menos hipócrita e mais gentil.

Com qual palavra você se definiria? Facilitador, e facilitar não é nada fácil.




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