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Dois casamentos
SELECIONADO

Sinopse: Duas noivas, enquanto aguardam ir para o altar, conversam sobre a vida, o afeto e o casamento.


Comentário da Curadoria
Por Cid Nader Após ver Dois Casamentos com o carinho quase matemático utilizado para capturar a encenação em giro e flanares quase constantes sobre algum palco de fundo indefinido, de espaços não palpáveis – para além dos corpos das duas protagonistas -, de luz atenta somente ao que interessa, de resultado que leva junto o espectador a um apuro estético que se faz belo por ser belo no arranjo das lentes e dos arredores que lhe servirão de campo almejado, a sensação de beleza máxima impera como algo que talvez até seja avesso a tudo que é contado lá dentro. A qualidade espetacular das imagens em quase macro (num início preparatório, que tanto denuncia o artificialismo de uma instituição que na realidade perdeu seu caráter mais belo – pela encenação de vestir, que similariza o ritual que precede um coroamento -, como remete a tentarmos ingressar nos gestos, brilhos dos olhos, pele da protagonista, revelando que na mulher há um modo mais complexo e avesso ao só racional imperando, para que o porvir venha brotado dos atos e respiros, também), que depois se abrem com lentes dominadoras de um espaço totalmente desenhado – algo sempre mais possível na qualidade em espaços fechados e controlados, do que o filme se valeu de maneira inacreditável -, chegam a ser “ofensivas” de tanto acerto: tanto quanto aliadas numa soma simples de 1+1, que resultará a simplicidade como a regra para tal resultado. A qualidade dessas imagens são sequências de fluxo quase hipnótico, quadros que rivalizam com obras plásticas, obtidas no acerto dos pontos de luz, no deslocamento controlado por um palco, por exemplo, chegando a ser desmistificadoras do que normalmente vem à mente do longo trabalho pregresso de Luiz Rosemberg Filho. Pensar em Ibsen ou Tchekov surge de maneira muito simples e natural diante do que resultou a peça encenada: pois se as características – inclusive pelo arranjo ambiental, sobre um palco e até com a utilização de alguns recursos típicos (espelho, uma mesa aqui, fundos negros infinitos...) - de ambos podem ser absolutamente identificáveis em meio ao todo, não resta nenhuma dúvida sobre Rosemberg ter conseguido dominar tantos símbolos com rara compreensão de cinema, que poucos realizadores conseguem manter: e mesmo transitando num paralelo à sedutora retórica e ostensividade do palco (até porque há o foco constante na interpretação impecável de Patrícia Niedermeier e Anna Abott, que mesmo de composição, forte demais, uma, e frágil seduzida , a outra, são esquadrinhadas pelas lentes de Vinícius Brum para “servirem” especialmente à captação, e não como quem domina – isso pode parecer estranho num primeiro instante, mas cinema “à vera” exige apoderamento do todo pelas lentes, inclusive dos protagonistas, para que não sejam ou tenham de ser o que segurará e cooptará o público), todo o caminhar das situações e tempos batem na tela como se realmente não pudessem ter vida independente fora dela. O diretor tem poucos parceiros da mesma estirpe ainda em atividade, no sentido de fazer da arte algo que escape totalmente do que é ditado por cartilhas. Mas de alguma maneira, esse seu despregamento do que domina esse ambiente sempre se deu de maneira diversa de seus poucos pares: Dois Casamentos seria quaser o ponto fora da curva, esteticamente, de sua carreira, que nos últimos muitos anos sempre privilegiou as imagens, palavras coladas, e signos aos montes, atropelando-se para preencher o campo abrangido pela retina, de forma desconexa, já que o ditado nos textos tratava de ser a liga principal em obras de teor ensaístico. Nem sempre foi assim, mas foi assim que perpetuou-se sua imagem e importância. Se aquele antigo e respeitado Rozemberg atacava tudo que é dos sistemas, das instituições, dos aceitamentos cordeirísticos de tudo que se propõe para regrar a vida e “defendê-la”, na marra, da real “vita”, e o fazia por essas colagens citadas, pelos excessos de necessidades que caberiam até se vomitados na película, ou o que quer seja como matéria que abrigue as imagens filmadas (tanto a dizer em tão pouco tempo, em tão limitado espaço), talvez fosse o caso de enxergar esse filme como se fosse o de um realizador novo, de um outro Luiz que chegou agora no pedaço, com a mesma necessidade de contestar, mas consciente de que isso pode se concretizado com certa linearidade ficcional pautando e regrando suas ideias, e beleza compositiva. Se Patrícia e Ana estão espetaculares e belas na tela, estão também “cerceadas” pelas situações que as conduzem nesse pré-instante de entrega ao matrimônio (que o diretor faz questão de rejeitar, nesse modelo, até onde não mais), e por tal se insinuam por muitas nuances, conseguindo explanar diversas necessidades, conseguindo de alguma maneira ser todas as mulheres: com todas as cargas que possa implicar ser a representação de todas as mulheres. E é o dedo, ou a mão, ou o gênio do diretor que, ao final, dá conta de saber tratar com tudo isso. Ter a sorte e a honra de poder contar com o longa e o realizador no Festival Internacional da Fronteira (lá na Bagé do Rio Grande do Sul), quando estive como o curador da edição de 2014, de alguma maneira me fez cúmplice desse novo Rozemberg sorridente e leve. Abraçar ao filme e a ele é como me sentir parte disso, desse instante (mesmo que não tenha nada feito nada para tal – mas, na vida, somos um tanto parte do que gostamos, outro tanto do que evitamos, mais um ainda do que realizamos...), para falar com os sentimentos aflorados e de alguma forma se impondo somente à razão analítica. Ter estado nesse momento inicial da carreira de Dois Casamentos (e seja longa ou breve, de muitos ou poucos – azar dos que não participarem desse instante), oferecendo um dos primeiros lugares que o exibiu, mais do que um crítico me permite ser o que reverencia, e que olha para todo esse pacote pensando em como é especial. Assim: especial… P.S.: e se as saudades do Luiz Rosemberg vociferador e mais provocador ainda bater, os últimos instantes do filme, em negativo, darão conta de botar certeza de que é do mesmo diretor que falamos. Para os distraídos. Fonte: CINEQUANON, http://www.cinequanon.art.br/

PROGRAMAÇÃO

Direção: Luiz Rosemberg Filho
Duração: 63min
UF/Ano: RJ/2014
Classificação Indicativa: 12 anos
Equipe: Roteiro e direção: Luiz Rosemberg Filho; Produção executiva: Cavi Borges; Fotografia: Vinicius brum; Montagem: Joana Collier

Contato: Cavi Borges - cavicavideo@gmail.com
   
   

(informações fornecidas pelos filmes no ato da inscrição online)





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