MFL 2018 - Clique aqui para conferir!


Um Homem Sentado No Corredor Inédito* Selecionado


Tanta gente no mundo e n�s aqui, quem diria.
Direção: Felipe Andr� Silva
Duração: 72min
UF/Ano: PE/2017
Classificação Indicativa: 14 anos
Equipe: Dire��o e Roteiro: Felipe Andr� Silva, Produ��o: Alan Campos, Assist�ncia de Dire��o: Victor Laet, Fotografia: Rafael de Almeida, Som Direto: Nicolau Domingues, Lucas Caminha, Dire��o de Arte: Joana Claude Migeon, Montagem: Thaynam L�zaro
Elenco: Bruno Parmera, Danilo Ribeiro, Dayanne Barros, George Andrade, Clebia Sousa, Mar�lia Souto, Pedro Toscano
Contato: Felipe Andr� Silva - voodoof@gmail.com
Facebook: https://www.facebook.com/cinemajanque
Website: http://www.cinemajanque.com/2016/01/homemsentado.html

Comentário da Curadoria


UM HOMEM SENTADO NO CORREDOR
O mumblecore brasileiro de Felipe Andr� Silva

Marcelo Ikeda

A sequ�ncia inicial de UM HOMEM SENTADO NO CORREDOR apresenta algumas das inten��es do filme: a possibilidade de os corpos jovens estarem juntos e de ser um filme sobre a luz. Numa sala de ensaio, vemos um conjunto de corpos se movimentando numa esp�cie de coreografia, dan�a e academia. A c�mera parada encena o grupo de forma frontal. Ao lado esquerdo, h� um espelho; e ao direito, uma janela, atrav�s da qual entra a luz no ambiente (o plano n�o tem luz artificial). No plano seguinte, ap�s o "exerc�cio", os corpos est�o relaxados, deitados ao ch�o. A luz cai ao longo do dia e vemos apenas um feixe de luz que entra pela janela. A agita��o dos corpos se transforma em sombras que repousam na penumbra.

No plano seguinte, vemos uma apresenta��o curiosa dos personagens. Eles se movimentam no palco como �tomos de uma mol�cula, at� que cada um deles, um a cada vez, para em frente � c�mera, e, de frente a ela, se apresenta para ... (quem? talvez n�s, os espectadores).

UM HOMEM SENTADO NO CORREDOR dialoga com algumas experi�ncias entre o teatro e a dan�a contempor�neos, em especial, pela sua aparente despretens�o e pela sua releitura do pop, com os trabalhos da cearense Andr�ia Pires.

Os planos mostram jovens no seu desafio de criar e viver. Assim, Felipe Andr� Silva d� continudade a seu projeto de cinema, em franca frontalidade e em car�ter muito singular, convocando os seus amigos que possam ajud�-lo a lidar com seus momentos de ang�stia e solid�o. "Vamos fazer um filme!". Dessa forma, Felipe vem construindo uma das mais singulares filmografias do cinema livre contempor�neo, que j� rendeu o longa SANTA M�NICA e uma dezena de curtas, sempre sem or�amento p�blico e sem editais, realizados em regime de urg�ncia.

Esses filmes t�m em comum o desejo de respirar um cinema cool contempor�neo jovem, que encena seus desafios por meio de uma representa��o do corpo e da sexualidade, e enfrentrando a dif�cil miss�o de encenar, de forma improvisada e com os atores, os di�logos. S�o filmes em que os personagens falam muito, e tentam encurtar essa dist�ncia entre eles, e tamb�m entre si mesmos, por meio desse desafio de por-se em cena (o que um corpo pode) e por meio das palavras.

Como cin�filo extremamente antenado, Felipe � diretamente influenciado pelo cinema contempor�neo, mas por uma escola que n�o rendeu bons frutos pelo menos aqui no Brasil: o cinema independente americano e especialmente a est�tica do mumblecore. Diretores como Joe Swanberg, Alex Ross Perry, Andrew Bujalski, Lynn Shelton, entre outros, est�o na lista de refer�ncias do diretor.

Os planos s�o quase todos muito longos, e mostram jovens no seu desafio de criar e viver. Duas meninas montam um piquenique numa pra�a e aguardam e chegada da terceira. O som dos carros aumenta at� um momento em que quase n�o conseguimos ouvir a conversa do trio. Corta para um plano frontal da avenida, em que os carros atravessam a Via Mangue. Vemos ao fundo o mangue em Recife ilhado por uma cerca que o afasta do asfalto. � o mesmo som infernal do tr�nsito que atravessa o apartamento em que os dois jovens se encontram na cena seguinte. A cidade tamb�m est� ali.

A �nfase na linguagem verbal n�o significa que UM HOMEM SENTADO NO CORREDOR seja apenas um filme de di�logos ou de roteiro. O trabalho de Felipe, que vem sendo aperfei�oado a cada filme, reside em como, a partir de um modelo espec�fico de produ��o (baix�ssimo or�amento, produ��o de amigos, improviso de atores), � poss�vel construir uma dramaturgia de personagens que mescle os di�logos (o som verbal), os movimentos do corpo, e tamb�m os sil�ncios. A conjun��o desses tr�s aspectos (voz, corpo e sil�ncio), mediante o plano longo e da c�mera fixa, permite ao diretor compor uma forma de encenar as ang�stias de uma gera��o jovem. Os temas da amizade, do encontro e do afeto - lugares de base em torno do qual giram v�rios dos filmes do cinema contempor�neo, como, por exemplo, os filmes do Alumbramento - ganham ent�o um novo contorno, uma nova roupagem.

H� uma sequ�ncia de quase seis minutos de c�mera parada que � um bom exemplo dessas inten��es. Os dois amigos v�o jogar videogame no quarto, param de jogar, conversam sobre a escola e depois de um certo constrangimento, se beijam. A dura��o do plano, a op��o do plano sequ�ncia, a imobilidade da c�mera, a �nfase no di�logo com tom coloquial de improviso, a forma como os corpos se relacionam (o certo constrangimento, o clima de aumento da intimidade sexual) e especialmente como os di�logos s�o entrecruzados por momentos importantes de sil�ncio (aumentando o clima sexual e mesclando com o constrangimento dos corpos) mostram a estil�stica t�pica do cinema de Felipe em seus melhores momentos de realiza��o e intimidade.

Os sil�ncios n�o acontecem apenas nos momentos em que os personagens n�o falam, mas tamb�m na pr�pria banda sonora. Se o filme � repleto de m�sicas que conjugam com a proposta do filme (Amandinho, Brad Sucks, ...) ele possui momentos singulares de total suspens�o das faixas sonoras, sugerindo um certo sentimento de suspens�o dos personagens (o menino na fila do cinema que olha outro; uma menina que sai da boate e respira na rua). � nesse segundo momento de sil�ncio total que vemos o pr�prio diretor sentado na cal�ada. Penso que talvez Felipe seja esse homem sentado no corredor.

Em seguida, quase como em OUT ONE de Rivette, uma c�mera na m�o, at� certo ponto at�pica no filme, acompanha um ensaio de contato-improvisa��o no mesmo espa�o da sequ�ncia inicial. � o primeiro momento do filme em que homens e mulheres se tocam.

A dramaturgia vai seguindo para a frente: os dois meninos transam sem roupa no quarto, e o plano, agora, � mais fechado, sentimos suas respira��es mais de perto. O filme vai se aproximando do corpo dos personagens, e reduz a sua dist�ncia inicial.

Logo em seguida o filme tem um recurso que dialoga com essas ambiguidades entre o cinema e o teatro. Um casal de namorados vai ao cinema para ver um filme. Mas ficamos com a impress�o de que o filme que eles veem trata-se de um ensaio de teatro em que os dois representam uma cena do espet�culo para as tr�s amigas que aparecem no in�cio do filme. Depois do ensaio da cena, os cinco discutem sobre a composi��o dos dois personagens. Ou seja, � como se os personagens assistissem a um filme que fala do processo de uma pe�a de teatro em que os mesmos fazem parte. Os atores olham para si mesmos diante do processo de um espet�culo que acontece diante dos nossos olhos. � um espelho do pr�prio processo de realiza��o do filme de Felipe.

Ao final do filme, os dois meninos saem de casa e v�o para uma festa. Os corpos dan�am, as luzes s�o artificiais e alguns desses personagens na festa olham para a c�mera, mas n�o falam. Eles se apresentam para a c�mera atrav�s dos seus gestos (do seu corpo, do seu olhar) e dos seus figurinos, dos seus penteados, dos seus modos de ser. Essa cena dialoga com a segunda sequ�ncia do filme (a dos personagens-�tomos que se movem apressados at� que param para a c�mera): sinto que � como se esses personagens tamb�m estivessem nessa sala de ensaios, movimentando seus corpos e se exibindo para a c�mera e para os outros. O cinema, essa grande festa, essa grande sala de ensaios do mundo, nada mais � do que uma pista de dan�a, onde os corpos est�o para ver e para serem vistos. Nada mais do que isso � o ato de viver. A luz da cidade vai caindo; j� � noite. Na boate, a luz � uma outra, que nem � a luz do dia nem mesmo � essa luz de penumbra que entra pela janela na sala de ensaios.

UM HOMEM SENTADO NO CORREDOR � todo cheio de presente. N�o existe passado ou futuro. N�o existe utopia. Se h� dor, n�o h� essa melancolia da depress�o. Existe essa cren�a em estar junto e sair da solid�o. Uma f� no presente e na presen�a. Uma fenomenologia simples e delicada do que � ser jovem hoje. Quase como se fosse uma brisa, nem fria nem quente.

PROGRAMAÇÃO


(informações fornecidas pelos filmes no ato da inscrição online)