Harmonia do Inferno
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Um dos maiores prazeres em fazer a curadoria da MFL é notar o surgimento de realizadores prolíficos e a evolução de sua trajetória. Vindo do Espírito Santo, um Estado pouco lembrado no audiovisual brasileiro, o capixaba Gui Castor sempre despejou quilos de curtas em nossas prateleiras. Entre erros e acertos, o gente-boa Gui no mínimo demonstrava uma produtividade muito acima do normal, principalmente para a sua idade. Foi quando em 2008, tomou força e coragem pra fazer o seu primeiro longa na marra, aos 22 anos. O resultado, A HARMONIA DO INFERNO, demonstra um poder impressionante. Trata-se simplesmente de um documentário sobre Elvira Pereira da Boa Morte (sic), uma catadora de lixo das ruas de Vitória – sim, mais uma destas pessoas que vemos todos os dias e que nem lembramos que existe. E Gui desnuda tal senhora, de então 69 anos, com uma crueza impressionante. Só assim sabemos que ela é analfabeta, mãe de 16 filhos (quatro deles já mortos), que é obrigada a cuidar de vários netos abandonados e que seu único sustento há anos é o lixo. A contradição do título é plenamente justificada com o discurso do personagem: ora bendiz a vida, logo depois declara não ter mais nenhum amor a ela. E tudo agradecendo a Deus, pois assim ela pôde dar valor a tudo que conquistou. Pode-se dizer que o longa tem, pelo menos, três seqüências antológicas: uma em que a personagem discursa em off sobre a falta de futuro de alguém, enquanto a câmera faz diversas tomadas de uma sorridente moça muito jovem (talvez menor de idade), repleta de varizes na perna, sem a maioria dos dentes da frente e... grávida. Mas se essa cena impressiona, nada se compara com a do neto retardado-mental de Elvira quando come a mesma comida do cachorro. Trata-se de uma porrada monumental, em que a câmera de Gui (o moço fez o filme praticamente sozinho) mostra toda a barbárie com uma frieza impressionante, embora pontuada sutilmente com uma música estranha e suave. O distanciamento atingido pelo realizador é digno da ética de um antropólogo qualificado, já que tal acontecimento provavelmente deve fazer parte do cotidiano daquelas vidas. No entanto, o final guarda a seqüência mais paradigmática de todas. Depois de outras cenas de forte impacto, como a do neto loirinho que mija em um túmulo (citação inconsciente ao Baiestorf, nosso homenageado???), acompanhamos a maneira em que Elvira escolhe o seu candidato para a eleição. Ela simplesmente vai olhando pro chão, pegando os santinhos que emporcalham a rua – mais um motivo pra não votar nessa corja – e, conforme a sua simpatia momentânea, digita na maquininha os números do papelzinho encontrado. Como uma cena pôde traduzir tão bem o dito analfabetismo político brasileiro em todos os sentidos?? “Ela foi totalmente espontânea; tudo que eu fiz foi acompanhá-la. Ela fez a cena”, garantiu Gui. E, ao fundo, ora em off, ora aparecendo, uma doida de rua (que vemos todos os dias e nem percebemos que existe, blá blá blá...) discursando palavras desconexas sobre... a “harmonia do inferno”. (KZL)

Programação
  • Dia 15-04-2009
  •   16:00 - Curta o Longa 7 (CCBB - Sala de Cinema)
  • Dia 23-04-2009
  •   17:00 - Curta o Longa 7 (CCBB - Auditorio 4º andar)

Diretor: Gui Castor
Duração: 62min
UF/Ano: ES/2008
Sinopse:
No Brasil, os depósitos de lixo nascem como uma solução “ecológica” para os lixões, porém, são alternativas de moradia para muitas pessoas. Este é o caso de Elvira, uma senhora de 69 anos que cria a família com o sustento do lixo. Acompanhada e administrada por sistemas insanos, ela luta para obter seus documentos básicos, ter uma casa e se aposentar. Com uma visão poética o documentário nos possibilita refletir sobre a indiferença da sociedade frente a uma realidade adversa presente em nosso tempo.
Formato Captação: Minidv
Formato Exibição: 35mm
Roteiro: Gui Castor
Produção Executiva: Andrea Braga
Produção: Gui Castor
Fotografia: Gui Castor
Câmera:
Arte:
Som:
Edição: AIê cinema
Edição de Som:
Elenco: Elvira Pereira da Boa Morte Weverton da Boa Morte da Costa Guilherme da Boa Morte Wanderson da Boa Morte Santos Rosa do Maranhão
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