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3 curtas nordestinos serão premiados na MFL 2012

Com imensa alegria a MFL anuncia os primeiros destaques de sua edição 2012. Os realizadores dos curtas abaixo virão ao evento no Rio de Janeiro para receberem seu troféu Filme Livre! e conversar com o público. Também já ganharam textos inéditos escritos pela curadoria da mostra! Começamos divulgando os 3 filmes do Nordeste que este ano serão protagonistas livres e seus respectivos textos! Destque para Daniel, Lisboa, que pela terceira vez é premiado na MFL, em 2011 com" O Sarcófago" e em 2007 com "Frequência Hanói".

Em breve os demais curtas e longas premiados na Mostra do Filme Livre 2012, que começa dia primeiro de março no Centro Cutlural Banco do Brasil do Rio, seguindo depois para Brasília e São Paulo.

 

A FELICIDADES DOS PEIXES, de Arthur Lins, de João Pessoa, PA

“Você é mais fechado, viu. Você tem algum segredo aí dentro.” No curta A Felicidade dos peixes, quem diz essa frase é a prostituta, única figura do presente, com a qual o protagonista se relaciona, rapidamente. Pressinto a força deste personagem solitário e apático; sua potencia é uma espécie de sombra, ou a falta dela. Quem sabe são as lembranças do protagonista, “é, só lembrança” ele repete. Imagens em VHS de uma criança no mar, som de toca-fitas de uma suposta carta da filha perdida no mapa, um peixe laranja no plástico que se dá às crianças, uma piscina vazia, ruidosa e o trabalho- pão de cada dia. Sem muito esforço, nem paixão, toda a existência deste protagonista parece estar contida no mesmo plástico do peixe enquanto a vida autocaminha por uma cidade qualquer, cada um na sua; a vida e a existência.

Neste espaço, entre uma e outra, há uma melancolia essencial, uma falta difusa. Uma falta. De quê?

Não há objeto de verdade. É um filme em suspenso. Atem-se aos mínimos gestos. Narra a banalidade. Um homem rodeado de sons; a trilha sonora de seus dias ali, naquele apartamento com vista e varanda. Há uma espera em algum momento. Algo que não se materializa. Uma espera metafísica que desemboca num sexo pago, sem violência. Há sequidão. Ternura também. Nada está claro, o filme acontece numa zona incerta, de todas e de nenhuma possibilidade. Há um presente também, bem delimitado por planos fixos e simples. Há passagens de tempo-espaço graças ao terceiro aquário; a televisão. Há um MUNDO PET, que não é exatamente um mundo cão. É o mundo de um cão domado. Contido. MUNDO PET, você tem algum segredo aí dentro, viu? E o bilhetinho da sorte entregue na caixa do Yakisoba sugere; “Na beira do abismo, puxe as rédeas do cavalo.” Há um abismo mudo e imenso do lado de lá deste curta. Uma falta sem medida para além dos aquários. Uma saudade. É poesia.      Por Manu Sobral
 

CELLPHONE, de Daniel Lisboa, de Salvador, BA

Uma história acerca de Cellphone. Que me faz pensar na premissa mesmo do diretor; propor um diálogo no espaço da invisibilidade entre ficção e documentário. Agora, alongo-me nas confusões geradas por este curta. Ele foi exibido num contexto de direitos humanos, e bastante criticado no momento. Aborda questões de Direitos Humanos? Primeira dúvida essencial. Eu defendi, sim, porque em muitos dos discursos documentais do filme, revela-se claramente o machismo tão enraizado na cultura da cidade. Um homem não pode ser baby-sitter, isso aqui é Salvador, meu rei, Brazil. Uma mulher na flor da idade está frígida com você, logo está lhe traindo, procura-se detetive com experiência no assunto. Pequenos crimes. Ao mesmo tempo, o curta trata destas questões sociais, de intimidade urbana também, com bastante humor, fugindo do estereótipo de uma suposta militância. Não, não é um filme denúncia de assuntos subterrâneos, nem mesmo de machismo (este foi um recorte pessoal) audíveis nas zonas etéreas das frequências telefônicas; é um filme-trote, tece uma ficção de acasos no meio de uma multidão munida de aparelhos. Uma ideia simples, revela intimidades no espaço urbano. Assuntos cotidianos. Voltando à polêmica. Uma militante de direitos humanos viu o curta como uma ameaça, sim ameaça, à um dos Direitos fundamentais: o direito à privacidade. Foi falado, o curta sugere uma situação onde anônimos podem ser grampeados, monitorados, o que remete à uma gravíssima infração; a de desrespeitar o direito que uma pessoa tem de controlar e disponibilizar as informações acerca de si. Ou seja, Cellphone foi, na ocasião, apontado como um curta que poderia, dentro de um contexto de Direitos Humanos, incentivar um estado controlador e não democrático. Monitoramento arbitrário de informações privadas. Foi um rolo. Para saber, no meio da reunião, se eram realmente grampos telefônicos, pois se fossem, estaria fora de questão apresentar o curta. Mas o fato não é fato e do outro lado das linhas, estavam atores, numa central organizada pelo diretor, passando espécie de trotes para números recolhidos em anúncios colados na rua. Cai então na água a suspeita de que o curta invade o espaço de liberdade do individuo por meio de prática ilícita. E o filme acaba até sendo premiado com o selo dos Direitos Humanos. Pois é. Fica aqui a deixa: de que forma um filme, com uma proposta narrativa não usual e ousada, pode suscitar de um lado indignação-estranhamento e de outro levantar questões tão poderosas quanto a do estado democrático. Não me pergunte porém, como este caminho crítico, meio torto, a história dos grampos foi tomar conta da cena, mas tomou. E ainda que fossem grampos, concordo, seria um filme feito de modo ilícito (como foi feito Frequencia Hanoi, outro curta dos irmãos Lisboa), mas este espaço invisível é ou não é um terreno da teia social? Do real? E outra; a suposta liberdade garantida por nosso estado democrático (teoricamente sem abusos nem invasões) é ou não está sendo constantemente ameaçada? Fica a ideia. Pode ser uma chave de leitura meio estranha para Cellphone, um filme bem-humorado, mas vale a pena refletir até que ponto uma estrutura narrativa de fronteira pode incomodar o espectador e o status quo.    Por Manu Sobral

 

EUROPA, de Leonardo Mouramateus, de Fortaleza, CE

O Ceará é um Estado peculiar. Popularmente conhecido por seus comediantes, como Renato Aragão, Chico Anísio, Tom Cavalcante, etc, ele tem no outro extremo a sua nova geração cinematográfica, que tem investido em um cinema contemplativo e nada “Zorra Total”, vide a obra de cineastas como os Irmãos Pretti (na verdade cariocas, mas que produziram bastante por lá), os Irmãos Parente, Ivo Lopes Araujo, Petrus Cariri, entre outros.

“Europa”, de Leonardo Mouramateus, também segue esta linha, tendo um dispositivo bastante curioso. O provocador título é explicado logo no terceiro plano, ao percebermos os nomes das ruas de uma humilde localidade cearense (Rua Itália, Rua França, Rua Bélgica etc). Aliás, o autor, numa boa sacada, simplesmente não botou o título em seu filme (soubemos que é oficialmente “Europa” por causa da capa do DVD e por ele tê-lo escrito com este nome). Criado este conceito, ele deixou a câmera rolar e que seu habitantes/personagens se manifestassem como bem entendiam. E o resultado é mais legítimo e poético do que qualquer documentário chapa-branca que se diz “etnográfico”.  Por Christian Caselli
 

Veja a ficha técnica e fotos dos filmes e quando eles passam em cada cidade em http://mostradofilmelivre.com/12/selecao.php









Mostra do Filme Livre 2011
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