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�Filme Livre� � uma id�ia em constru��o

por Marcelo Ikeda (Publicado no catálogo da MFL 2005)

Uma das maiores discussões da curadoria da Mostra do Filme Livre é tentar definir o que seja um filme livre, qual é o conceito de filme livre que se busca. Nas duas edições anteriores, formulamos uma idéia que muito me agrada: a de que o filme livre é uma “idéia em construção”. Sim, porque o próprio processo de busca do filme livre vale muito mais que o resultado dessa busca. Não vale a pena estipular limites, padrões, tentar “definir” o que seja um filme livre, porque senão caímos no risco de “rotular”, de aprisionar a própria liberdade de mutação e de metamorfose do conceito. O filme livre é aquele que não se prende a rótulos, a conceitos pré-estabelecidos, mas que é guiado apenas pela liberdade de criar.

Dessa “liberdade de criação” se deriva a idéia de que o processo é tão ou mais importante que o resultado do filme em si. Ou ainda, o que se busca com o “filme livre” é um trabalho que possua um olhar e um desejo. Com “um olhar”, busca-se um trabalho que tenha um rigor particular, que seja coerente a seu modo, que codifique suas informações a partir dos elementos da linguagem cinematográfica, e que os disponha no filme segundo seus critérios e opções próprias, que busque um estilo. Com “um desejo”, busca-se um trabalho que tenha uma paixão, seja pelo cinema ou (tanto melhor) pela vida, que o filme tenha um trabalho de expressão que contagie, emocione ou sensibilize que estiver assistindo, que seja um filme irradiante ou delirante, que transponha os limites da tela. Enfim, um olhar e um desejo.

Por outro lado, devemos ser menos românticos. O “filme livre” é de várias formas uma utopia. É impossível que um filme seja absolutamente livre, pois o filme, como os próprios seres que o realizam, esbarram em inúmeros limites. Os limites são vários, e vão desde a falta de recursos para fazer o que se deseja até os nossos próprios “pré-conceitos”. O filme precisa de um suporte – físico, tangível, concreto – e, como todo processo material, é finito, definido, limitável.

A Mostra do Filme Livre ainda acredita nessa utopia, não querendo realizá-la, nem mesmo fazendo um “trabalho de catequese”, querendo “converter” todos os filmes para que sejam da forma como ela acha que eles devam ser, mas simplesmente acreditando na possibilidade da diferença, de que cada filme possa se expressar de sua forma particular, e não de que todos os filmes devam se expressar da mesma forma – o que parece ser a síntese de um cinema globalizado, massificado, televisivo, hollywoodiano, burocrático. Um cinema de liberdade, assim, revela-se um cinema de resistência. O filme livre acaba virando um filme político, um filme de trincheira.








Mostra do Filme Livre 2011
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